Eu poderia começar este post explicando – mais uma vez – que dancei a vida inteira, que minha formação de jazz tinha como base o estilo americano, aquele da Broadway, que em um momento da minha adolescência eu cheguei a pensar em chutar o balde, pegar minha trouxa e me mandar daqui atrás de audições para musicais. Poderia, claro, mas assisti à montagem do musical “O despertar da primavera” na última quinta-feira e tudo é tão bom, tão bem feito, tão bem cuidado, que a introdução “souloucapormusicais” chega a ser desnecessária. Quem não é “loucopormusicais” certamente vai se encantar com o que encontra sobre o palco do Teatro Villa-Lobos.
Contém spoilers
A adaptação que a dupla Möeller & Botelho (como eu disse no Twitter, praticamente um Sullivan & Massadas dos palcos: só tem hit!) fez do musical de Duncan Sheik e Steven Sater (que, por sua vez, adaptaram a peça de 1891 escrita pelo alemão Frank Wedekind) é deliciosa. “O despertar da primavera” conta a história de um grupo de adolescentes do final do século XIX e retrata as mudanças de fase, o crescimento, o despertar da sexualidade, os amores, as dúvidas, as crises.
Poderia muito bem ser um “High School Musical” com pessoas do século passado retrasado, mas não é. Ou melhor, pode ser um “High School Musical” do mundo bizarro, sem sainhas curtas, mas com figurinos de época. Sem beijinho na bochecha, risadinha tímida de canto de boca e protagonistas certinhos. Pelo contrário: para situar o mundo daqueles adolescentes e tudo aquilo que é retratado, o musical fala e canta a opressão, incesto, onanismo, suicídio, religião, sexo, sexo e muito sexo. Tem ainda beijo gay, espancamentos, fuga de casa, drogas e até fura-olhismo. Temas polêmicos que ganham peso quando saídos da boca de um talentoso elenco tão jovem quantos seus personagens.
O mocinho, Melchior, um contestador ateu que peita família, escola e igreja, está longe de ser um Troy, o perfeitinho interpretado por Zac Efron na produção teen americana. A mocinha, Wendla, deixa a recatada Gabriella no chinelo: já faz a mãe corar ao perguntar de onde vêm os bebês e se vê enrolada por uma explicação nada verossímil que vai complicar a sua vidinha mais pra frente. Nem as fotos de Vanessa Hudgens pagando peitinho se comparam a tudo o que os personagens passam.
Embalando a linguagem do final do século retrasado e contrastando com os (ótimos) figurinos de época, as músicas são executadas ao vivo por uma banda de rock. Arranjos cheios de guitarras (e violino e violoncelo, vá lá) e letras espertinhas com direito a ode à punheta ou a sonoros “vai se fuder” . As coreografias são bem sacadas: simples, mas que exploram todo o palco e o cenário mega-versátil, cheio de possibilidades para aquele grupo de adolescentes comandado pelos veteranos Débora Olivieri e Carlos Gregório, nos papéis de todos os adultos do musical.
Eu poderia ficar horas descrevendo tudo o que me encantou no musical. Poderia, mas não vou. São duas horas e meia de peça e muita coisa acontecendo, muito detalhe para se prestar atenção, muita revelação a se descobrir. O melhor é recomendar a ida ao Villa-Lobos: o serviço (e muito mais informações sobre o musical), você encontra no (completíssimo!) site da dupla Charles Möeller e Cláudio Botelho.
* Esta que vos fala assistiu ao espetáculo a convite da Agência Frog.













