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Sobre jornalismo

Estava guardando (e aguardando ansiosamente) para daqui uma semana o momento de forte emoção em que tiraria o prefixo “proto” da frente do substantivo “jornalista” ali da descrição do blog e postaria sobre a satisfação (e o alívio!) de encerrar meu ciclo na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, depois de quatro anos e meio cursando Comunicação Social. Alguns poucos que me acompanham nessa vida de blog há mais de sete anos viram todo o processo: desde o término do segundo grau até eu entrar na faculdade que eu queria, os estágios e até a minha contratação ainda com um semestre letivo inteiro pela frente.

Eis que uma semana antes do término das minhas aulas, o Supremo Tribunal Federal derruba a obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão de jornalista. Não vou dar o lead, porque o bafafá vocês devem ter acompanhado, mas resolvi abrir um espaço neste blog normalmente tão leve para falar de um assunto sério e dar minha opinião sobre essa polêmica toda.

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Perdi a conta de quantas vezes esse filme foi exibido na faculdade

Nunca vi essa gritaria toda por conta da regulamentação das profissões de designer e publicitário e o mercado é bem semelhante ao nosso, dos jornalistas. O que consigo concluir de todo esse bafafá é que muitas pessoas têm tratado o diploma como muleta, como se o canudo de papel fosse garantia de alguma coisa, sendo que, né, nunca foi.

Depois de quatro anos e meio de experiência acadêmica, posso afirmar que a faculdade de jornalismo ensina bastante coisa, sim, mas não tudo, e longe do essencial. Na metade do curso me dei conta de que num mundo ideal eu teria feito um curso técnico de dois anos e meio e me especializado em outra área, até mesmo poderia ter feito uma outra faculdade. Seria muito mais proveitoso e, acima de tudo, honesto. Mas o jogo não era assim e não será daqui pra frente, então joguemos como mandam as regras.

Podem me chamar de ingênua, mas não vejo, sinceramente, mal nenhum na decisão do Supremo. Acho até uma pena isso ter acontecido só agora, depois que eu meus pais gastei gastaram uma grana preta pagando meus estudos porque, de outro jeito, teria feito somente as matérias que prestavam, com os professores que me acrescentaram alguma coisa. Sim, eles existiram, foram verdadeiros mestres, que foram muito importantes para a minha evolução, mais do que as ementas podem prever. Mesmo assim, deixaria de lado as matérias obrigatórias de religião, a antropologia-para-fingir-que-tem, a sociologia-de-boteco e cadeiras semelhantes em que reina o pacto de mediocridade: os professores fingem ter sua importância e os alunos fingem que aprendem alguma coisa.  Se o diploma de jornalismo nunca tivesse sido obrigatório – vale lembrar que há até relativamente pouco tempo não existia faculdade de comunicação – eu teria puxado mais matérias de outros cursos. Deixei de fazer muita coisa de Desenho Industrial, Publicidade e Cinema porque aumentava muito a mensalidade e sobrecarregava a carga horária. Trabalho desde o segundo período, buscando melhorar meu preparo profissional (e pra pagar a cervejinha do fim de semana porque eu não sou de ferro) e não me sobrou muito tempo para me dedicar a cadeiras não-curriculares.

Pelo que eu entendi do mercado nesse pouco tempo que faço parte dele (e, principalmente, observando a trajetória dos meus amigos e colegas com quem trabalhei), os empregadores querem ver o trabalho que você tem para apresentar e não onde você se formou. Já notei que gente boa e que corre atrás (não adianta muito ser um sem o outro) não fica desempregada por muito tempo e não vai ser a não-obrigatoriedade do diploma que vai mudar isso. Só acredito que gente competente que não teve como se formar por circunstâncias da vida vai poder exercer o mesmo trabalho que eu sem nenhum ônus para mim ou para minha “dignidade profissional”. Um dos melhores exemplos para justificar isso é o Ricardo Schott, do saudoso Discoteca Básica, que, sendo psicólogo, é um dos jornalistas musicais que mais admiro. Certo de que psicologia não era o caminho, ele preferiu trabalhar a voltar para a faculdade. Acho o trabalho do Schott como jornalista tão incrível que me recuso a ficar ofendidinha só porque ele não tem o mesmo diploma que eu. Quer dizer, não tinha: por causa da obrigatoriedade, quando ele já trabalhava na área, o Schott teve que entrar para uma faculdade de jornalismo e só agora, aos 30 e alguns anos, ele está se formando.

Por isso tudo, acho uma tremenda besteira o argumento de quem acha que estudou quatro anos pra nada, parece mais discurso de quem comprou um título em vez de querer se especializar e, como disse lá em cima, esse título nem vale de nada, a não ser para quem almeja a vida acadêmica (duh) ou os concursos públicos. Aproveito até para fazer uma pesquisa: quantos jornalistas formados e bem colocados no mercado tiveram que apresentar o tal pedaço de papel na hora da entrevista? Sinceramente, o que vale mais? A sua formação ou a sua produção? O meio ou o fim?

Daqui pra frente, que a faculdade valha como um complemento pra formação. Quem quiser faz, quem achar que não precisa, ok. Se é bom ou não, o mercado vai dizer.

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E como o Go to Heaven não se faz de hard-news, o outro post de hoje é sobre a vinda do diretor Michel Gondry ao Rio.

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