Dois dias, 900km, mais de 10 horas dentro de um carro, quatro malucos, três bees, menos de quatro horas dormidas em um hotel e eu tô cansada pra caralho. Todo esse esforço pra conferir o Planeta Terra, festival do portal homônimo, que rolou no sábado em São Paulo. E olha que o Teenage Fanclub nem foi escalado, heh.
Mas vamos lá, festival de música, line-up interessante, pouca grana investida, oportunidade de viajar e encontrar com amigos queridos… por que não?
Lucy and the Popsonics, Pato Fu, e Supercordas eu passei. Tokyo Police Club? Nah, deixei pro único ser humano na face da terra que deve ter uma camiseta deles. E tava escrito Tóquio. Juro, eu vi. Enfim, digressiono. Era consenso no carro que não dava pra chegar tão cedo à Villa dos Galpões depois de tanta estrada. Era preciso descansar pra pegar o restante da maratona.
Depois de passar pelo Credicard Hall – que, à época do show do Oasis me pareceu ser o lugar mais distante do mundo – e de nos perder, chegamos à Villa dos Galpões no começo do show do Datarock e Instituto. O line-up extenso pulverizou o público e facilitou a entrada. Fila pequena, em cinco minutos já estávamos lá dentro. Um breve reconhecimento de área, marcação de ponto de encontro e fomos eu e Felipe pra tenda conferir o que tava rolando e o Datarock me chamou atenção…

A partir daí, meus relatos são parecidíssimos com os do DJ Janco Tianno, já que assistimos a praticamente tudo juntos, com medo de nos perder no meio da multidão. Baixinho tem mais dificuldade pra ser achado, certo? Digressiono de novo. Eu desconhecia o duo norueguês, mas foi só ver aqueles caras de hoodie vermelho, pulando feito loucos e se divertindo a valer que virei fã. Foi fácil ganhar o público. E me ganharam facinho também. Se eu achava que o hit FaFaFa já tinha marcado todos os gols do show, os noruegueses – apesar de eu achar que o vocalista, Fredrik Saroea, tem um pézinho na LATINIDAD – mandaram ainda melhor. O que parecia ser o fim do show, com luzes se acendendo e o BG rolando virou um grande karaokê de (I’ve Had) The Time Of My Life, aquela do Grease que todo mundo já dançou em matinê. Dublagem, caras, bocas, fotos da galera e a festinha ficou completa.
De lá, parti pra esperar pela Lily Allen. Fazendo jus à pontualidade inerente à sua procedência, miss Allen subiu ao palco às 22h, pulando ao som da sensacional LDN. A baixinha era só sorrisos dentro do vestido roxo com um laçarote enorme na frente, empunhando o microfone espalhafatosamente fluorescente. Ali tive a sensação de que ela ganharia a noite, mas o som, baixo, não colaborou. Algum problema maior causou um delay chatinho entre as músicas, que a mocinha compensou falando besteira e divertindo quem tava a fim de prestar atenção. Lily bebeu, acendeu o cigarro e falou, falou, falou. De “fuck my bush” pro presidente dos EUA à confissão de que tinha bebido um pouco demais, culpando o álcool pelo esquecimento de várias letras, Lily esbanjou simpatia. E foi o carisma absurdo que ela exala que salvou o show dos problemas técnicos do som e da memória fraca da cantora. Covers? Sim, ela já provou que é boa nisso. Lily mandou Gangsters, do Specials; Everybody’s Changing do Keane e Heart of Glass, que ela já tinha cantado com a Debbie Harry por aí. Lily provou que é a popstar que ela mesmo disse ser por ter feito um show super despretensioso – por ser o último de uma turnê de dois anos – e cheio de falhas ser uma delícia. Continuo fã.
Quando Lily se despediu, ainda rolava o finalzinho do show do Cansei de Ser Sexy. Ou CSS, pros entendidos. Como não era meu caso, foi hora de ir ao banheiro e encontrar amigos. Logo depois, subia ao palco principal o lendário Devo.
Assisti ao começo chutador de bundas, o que afastou toda e qualquer possibilidade de eu achar aquela reunião de tiozinhos um espetáculo de vergonha alheia. Sabe aula de rock? Mas eu cheguei a baixar na tenda do Rapture, fiquei por uma música, tive um ataque claustrofóbico e lá fui eu conferir o fim do Devo. Novamente, aula de rock. Saí de lá com a sensação de que todas essas bandecas deveriam ter visto o que aquelas seis mil pessoas viram pra saber como empunhar uma guitarra de maneira honrada. Yeah, yeah, yeah, yeah, yeah!
Dali, já quebrada, dolorida, moída e com sono, o jeito foi esperar pelo show do Kasabian, aquela banda da qual só tinha ouvido o primeiro cd. E não tinha gostado, o que me desmotivou a ir atrás do segundo, lançado esse ano. Mas tudo bem, eu estava em bando e precisava esperar. E não é que mordi a língua, meu bem? Com absurda meia hora de atraso (vejam bem, único show atrasado do festival!), os moços de Leicester me surpreenderam já na abertura com citação a Enio Morricone, emendada com uma versão pesadíssima do hit Shoot The Runner. Ali eles já conquistaram minha atenção. As referências às bandas de madchester que eles colecionam ficam mais claras ao vivo. E confesso que ouvir uma banda do chamado novo rock que não chupa Gang of Four e/ou Talking Heads e sim Primal Scream e Happy Mondays, com um pézinho no Oasis e até ecos de Verve, como Tianno bem frisou, me fez sentir um alívio enorme. É bom encontrar alguém com outras referências nesse mundo, não é mesmo, minha gente? Ainda mais quando citam PS e Kinks na mesma música. Foi demais pro meu coraçãozinho. Os caras tomaram o palco, mantiveram a pose de roquestrelas que aprenderam com seus antecessores e me fizeram correr pra ouvir o disco no iPod assim que entrei no carro. É, ao vivo é realmente mil vezes melhor. Que bom que eu paguei pra ver.
O saldo do festival foi extremamente positivo. Sem atrasos, sem filas, bebidas baratas, atendentes simpáticos, banheiros suficientes e com papel higiênico (mas faltou pia!) e estrutura bem montada. O esquema em dois palcos com pequenas diferenças de horário funcionou super bem, evitando que um lugar ficasse cheio demais e outro vazio. Com isso, nada de aperto ou claustrofobia. Sujeira? Nenhuma, toda hora via um servente catando os copos que o pessoal deixava pelo chão. Simpatia? Todo o staff parecia esbanjar. Não dá pra reclamar, né? Pelo contrário, resta torcer pra ter mais em 2008.
De lá, caímos na pilha errada de ir até o Clube Belfiore, pilha errada de um amigo que jurou de pés juntos que o pessoal do Rapture estava indo pra lá. E eu com isso, né? Mas acabei seguindo o fluxo e fui. Depois de 1h lá dentro, tendo escutado Tainted Love, Personal Jesus, Walk Like An Egyptian, Here Comes Your Man e It’s The End of The World As We Know It (And I Feel Fine) e uma cantada que incluía a palavra BAGUETE, decidimos ir embora e dormir quatro horinhas pra curtir um pouco mais de São Paulo antes de voltar pra casa. E, na real, eu nem queria voltar, como acontece sempre que piso na terra de concreto e poluída que tão bem me faz. Mas o dever me chamou e até que foi divertido jogar EU NUNCA presa num engarrafamento na serra das Araras.