
Registros do querido Vitor Leite, que estava perto do local onde fiquei
Os comentários começaram baixinho, com a notícia se espalhando feito um telefone sem fio, com muito amor e carinho. Amigos que estiveram no ensaio na semana anterior proclamaram que a boa deste carnaval seria a estréia* do Exalta Rei, bloco que prometia desfilar pelas ruas da Urca uma homenagem a Roberto Carlos e sua obra em ritmo de ziriguidum.
De repente, como as ondas do mar, só se falava que o bloco de segunda era papo firme. O problema eram os horários conflitantes das informações que vinham de todos os lados: a imprensa anunciava o cair da tarde, o povo repassava pelo boca a boca que o Exalta Rei se concentraria às 15h. Por via das dúvidas, vesti a roupa de marinheira, meu bem, peguei minha rosa de pelúcia e esperei mais notícias sobre a saída. De última hora, confirmou-se o rumor popular e quem rumou para a Urca fui eu, seguida por amigos, namoradinhas de amigos meus, conhecidos que mais e mais iam abarrotando a estreita rua da mureta.
O relógio marcou as 15h, mas nada do bloco aparecer. O novo motivo de boataria era o local da saída. Uns diziam que ia, outros diziam que vinha. Só sei que segui o som e às três e tanta peguei a bateria – mínima – começando a ensaiar umas canções que Ele fez para nós e, confesso, deu medo. O pessoal parecia meio perdido com a meia dúzia de músicas que tocavam – Jesus Cristo, Caminhoneiro, Amigo, Nossa Senhora, Eu Sou Terrível - e o mestre (ou seja lá o que fosse aquele cara) resolveu tirar todo mundo do esconderijo já não tão secreto porque todos já estavam chegando atrás da folia, seguindo o som que vazava.
Temendo o fiasco, já fula da vida com a desorganização e o atraso, parei num bar pra esperar a banda passar (ops, esse é outro!) e, uma boa meia hora depois das 16h, o Exalta Rei desceu a ladeira tal qual uma força estranha, arrastando quem estava no caminho – e tinha muuuuita gente – rumo à casa do Rei. Gente jovem reunida que se acostumou a ouvir Roberto Carlos desde o comecinho da vida, lembranças dos pais que cultuavam o Rei desde a época em que ele tinha um calhambeque. O número de músicas diminuiu, o som ganhou força com o coro desafinado e embromador da multidão que não sabia as letras – me incluam nessa. Alguém aí sabe cantar Todos Estão Surdos? – e a bateria fez o recuo em frente a casa de Roberto Carlos para mostrarmos como é grande nosso amor por ele.

Crente que o Rei vivia em um palácio, só acreditei que ali era sua morada depois que os funcionários da mansão real apareceram na varanda e ele acenou para a plebe que àquela altura já não cantava mais nada, só urrava de alegria. O problema é que, mulher pequena que sou, não consegui ver a primeira aparição.
Até que Roberto Carlos, o próprio, em pessoa, vestindo seu tradicional traje azul e branco, surpreendeu a todos, mostrou que sabe brincar e desceu para o play para encarar seus súditos mais de perto, agradecer o carinho desafinado, segurar o estandarte e arriscar uma sambadinha.
Em volta, muita gente emocionada, mas tão emocionada, que o bloco deu aquela dispersada. Alguns seguiram em frente, além do horizonte, mas achei melhor parar. Para que seguir em frente se tantos momentos bonitos já tinham acontecido? Voltamos para ligar para nossos pais – e mamãe sabendo de minhas lágrimas nos olhos ficou toda emocionada – comentar as recordações com os amigos e nos recuperar do choque.
Se eu pudesse voltar no tempo, faria tudo de novo. Sim, porque no próximo ano a Urca vai ser pequena para tanta gente que vai aparecer atrás do belo momento que vivemos naquela jovem tarde de segunda.
* Com acento porque este blog é apegado à velha ortografia e só vai abandoná-la quando sua editoria for ameaçada de prisão por desrespeitar as regras.