Boteco da Garrafa

São muitos os protestos contra a paulistanização dos botecos no Rio. Sem preconceitos, o fenômeno é real e é causado pelos bares arrumadinhos, de rede, que se espalham por aí com a velocidade de uma Ferrari passando pelo Aterro do Flamengo às 4h da manhã. Como eu tenho menos de 50 anos e tô pouco me lixando pra tradição, não reclamo. Se eu não posso vencê-los, acabo me juntando a eles.

E foi imbuída de um espírito desbravador que fui conhecer o recém inaugurado Boteco da Garrafa, na Rua Paul Redfern, em Ipanema. Na verdade, o tal “boteco” é a segunda filial da nova franquia da rede Belmonte, que infesta a cidade com a casa principal e com o tal do Antonio’s, que ninguém me convence de que seja algo além do que o Belmonte com um logo diferente e preços mais salgados.

Mas enfim… a terceira marca do grupo tem um atrativo maior que a empada aberta de camarão com catupiry. Sim, o Boteco da Garrafa faz jus ao nome e serve uma iguaria cada vez mais rara em botequins freqüentáveis no Rio: a mais que amada cerveja de garrafa. Com o cardápio baseado nas cervejas premium da Ambev – que patrocina a casa e a decoração meio over do ambiente – é muito bom saber que eu posso dispensar o chope Brahma de 300 ml a R$ 3,20, R$ 3,40 pra tomar uma garrafa de Serramalte (que, até então, só tinha achado em São Paulo), Brahma Extra e até importadas por menos do dobro do preço. Não é lindo?

Pois é, eu acho. Pra acompanhar as garrafas e mais garrafas, optamos por petiscos em vez de pedirmos uma porção só que nos encheria e daria uma visão menos, err, ampla da coisa toda. Os croquetes de camarão e carne da casa são honestos, mas como meu parâmetro pra croquete são as divindades servidas na Casa do Alemão, em Petrópolis, não fiquei nada impressionada. A próxima iguaria escolhida pelo casal foi o pastel de picanha que deveria vir acompanhado de molho barbecue, que até agora eu tô esperando. Pastel também justo, tranqüilo, mas ainda prefiro os do Bar do Adão.

O item do cardápio que conquistou meu coração pra valer foi o ícone máximo da lei de Lavoisier: o famigerado bolinho de arroz. E não faz essa cara feia, porque se você for implicar com os cortes de picanha que se transformam em pastéis e no arroz de hoje que vira o bolinho de amanhã, você simplesmente vai ter que parar de comer fora de casa. E todas os rodízios de pizza iriam à falência, ó a maldade.

Como o que não mata engorda, com orgulho e felicidade vos digo: o Bolinho de Arroz com Parmesão (sim, com caixa alta porque ele merece) do Boteco da Garrafa é fan-tás-ti-co. De barriga cheia e com cervejas suficientes pra dentro, deixamos a casa com a certeza de que vamos voltar. E não só pela comida, bebida ou pelo ambiente – que fica naquela indecisão entre ser um bar brega-arrumadinho e preservar elementos
típicos de botecos true e acaba virando um samba do Crioulo Doido – mas trocar aquele chope mais ou menos por uma boa cerveja faz a conta bancária dar suspiros de alívio e deixa todo mundo na mesa mais alegre.

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6 Responses to “Boteco da Garrafa”


  1. 1 andre

    Texto muito à lá Juarez Becoza, hehe, o que é um elogio. Se eu não morasse em bairro tão distante ficaria tentado a ir. Pra mim um dos mais interessantes tira-gostos do Rio é o lombinho com chips de legumes servido no Petit Paulette (talvez o nome mais guei dos botecos do Rio), na Praça da Bandeira. Surpresa relativamente recente e boa.

  2. 2 Diego

    O texto tá saboroso, moça. Puta vontade de ir até aí pra ver se eles bolinhos desbancam o do Ritz.

  3. 3 livbrandao

    André, da Praça da Bandeira só conhecia a fama do Aconchego Carioca, mas vou procurar saber mais sobre esse de nome esquisito.

    Diego, vem me visitar que eu te levo lá!

  4. 4 andre

    Se não me engano, o dono do Aconchego é o mesmo do Petit Paulette. Fica praticamente um ao lado do outro. A carta de cervejas do Aconchego é incomparável, mas vale a pena dar um pulinho no bar vizinho para provar os petiscos.

  5. 5 Ruy

    Aqui já se fala há algum tempo da carioquização dos botecos (e bares) paulistas. Mas não acho que seja o caso de reclamar. (=

  6. 6 Pedro

    O Paulete (dono do Petit Paulete, veja só) era um dos donos do Aconchego, que agora é apenas da mulher e da irmã dele :)

    Ainda tô devendo uma visita pra provar a rabada de avestruz (e comer mais dos croquetes).

    Assim como estou me devendo almoçar no Aconchego.

    Formou?

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