Cadê tempo para atualizar o blog? Não tenho! Muitos textos pra ler, livros pra colocar em dia, muito trabalho, muita coisa mesmo.
Resolvi postar a matéria que escrevi para o trabalho final de Redação em Jornalismo Impresso, para o professor Chico Otávio, d’O Globo. O lance era falar sobre os festivais de música que rolaram no país e a conotação política e social embutida neles. O gancho? O Live Earth, claro. Tá meio datada, mas me valeu um 10, ufa.
O texto fez parte de um trabalho em grupo, que ainda pariu uma matéria sobre aquecimento global e um box sobre o histórico dos festivais de música no Brasil. O que reproduzo abaixo é minha parte. Tá enorme, eu sei, mas o número de caracteres foi estabelecido pelos superiores.
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Live Earth chega ao Rio: o encontro entre música e política nos festivais no Brasil
No dia 7 de julho de 2007, cerca de cem artistas se apresentarão em nove cidades espalhadas pelos cinco continentes. A idéia é unir cidadãos do Rio de Janeiro, Sidney, Tóquio, Xangai, Joanesburgo, Londres, Hamburgo, Istambul e Nova Iorque em torno de uma causa comum: o famigerado aquecimento global. A série de shows chamada de Live Earth foi idealizada pelo ex-vice-presidente americano e (talvez) futuro candidato à Presidência dos Estados Unidos Al Gore, que tem se aventurado pelas causas ambientalistas. O projeto se vale do prestígio e da fama de nomes da música para angariar adeptos em prol da conscientização ambiental. Por aqui, a praia de Copacabana sediará shows gratuitos do rapper americano Pharrell Williams, de Lenny Kravitz e da cantora Macy Gray, que dividirão palco com os locais Xuxa, O Rappa, Jota Quest, Jorge Ben Jor, Vanessa da Mata, Maria Rita, Marcelo D2, Adriana Calcanhoto e Alcione. Tem para todos os gostos.
Não é de hoje que o Brasil serve de cenário para festivais de música com cunho político e social. Se agora a discussão é o meio ambiente, em 2001, cerca de 1,5 milhão de pessoas compareceu à Cidade do Rock, para assistir às dezenas de shows programados para os sete dias de Rock In Rio III. Na ocasião, a intenção era pedir por um mundo melhor, tarefa que paralisou mais de 3,5 mil emissoras de televisão e rádio do país durante três minutos em 12 de janeiro daquele ano. Mesmo com a integração de diversas ONGs ao evento, a causa social era só um slogan se comparada às muitas atrações internacionais que pisaram em solo carioca. De Britney Spears a Iron Maiden, de Foo Fighters a Oasis, de Silverchair ao Red Hot Chilli Peppers, passando por nomes nacionais como Cássia Eller, Gilberto Gil e Sepultura. O público parecia bem mais preocupado em participar do maior festival de música realizado no país do que militar por causas nobres como a paz mundial.
Treze anos antes, em 1988, o Festival da Anistia Internacional, chamado de ‘Human Rights Now’ incluiu o estádio do Parque Antártica, em São Paulo, na turnê internacional que realizou 20 apresentações beneficentes entre os meses de setembro e outubro. De acordo com a produção, a intenção não era apenas arrecadar fundos, mas também estimular a consciência mundial no aniversário de 40 anos da publicação da Declaração Universal dos Direitos Humanos e chamar atenção para a situação dos presos políticos mundo afora. Ganhou o público de cidades como Londres, Paris e Nova Déli que viram Bruce Springsteen, Peter Gabriel, Tracy Chapman e Youssou N’dour juntos. Ao todo, a excursão percorreu 16 países. Na apresentação paulista, a trupe bem-intencionada teve a companhia do cantor Milton Nascimento.
Estes exemplos contrastam com episódios políticos espontâneos ocorridos na história dos festivais brasileiros de música. “A institucionalização dos festivais de música é um movimento recente na história do Brasil. A indústria fonográfica percebeu o potencial de venda que um evento de grande porte pode ter. As boas intenções estão cada vez mais ligadas ao marketing”, critica o jornalista musical e professor universitário Arthur Dapieve. “O caso do Live Earth é parecido. Até há quem se preocupe com o aquecimento global, mas ninguém vai à praia exclusivamente por causa disso, vai para ver os artistas se apresentarem. Aqueles que não ligam nem um pouco para a causa acabam achando que já estão fazendo alguma coisa por estarem presentes. É como se fosse um alento”, completa.
No ano de 1985, durante a primeira edição do Rock In Rio que, ao contrário de seu irmão mais novo não levantou nenhuma bandeira, o público presenciou um momento marcante da política nacional. “Tancredo Neves foi eleito em 15 de janeiro daquele ano, em meio ao festival. O Brasil seria enfim governado por um opositor à ditadura depois de tantos anos de governo militar”, explica o jornalista musical Sérgio Martins. “Antes de anunciar a primeira banda, o apresentador soltou um grito de esperança: ‘Vamos acreditar que vai mudar’. Logo depois, Paula Toller, vocalista do Kid Abelha, subiu ao palco enrolada em uma bandeira do Brasil”, completa. Na mesma noite, o Barão Vermelho de Cazuza tocou “Pro Dia Nascer Feliz”, música que ganhou outra conotação diante do contexto político, ao ter o verso-título trocado por “pro Brasil nascer feliz”, “um Brasil novo”, segundo Cazuza. Na Cidade do Rock, 50 mil pessoas acompanharam a canção, repetida com a mesma emoção cinco dias depois, na segunda apresentação do Barão Vermelho no Rock In Rio. “Eles tocaram a música certa, na hora certa, no lugar certo. Foi catártico”, confirma Dapieve.
Enquanto essas manifestações comemoravam o iminente fim da Ditadura Militar, os anos de chumbo também foram marcados por protestos em forma de música. A chamada “era dos festivais”, transmitidos entre 1965 e 1972 pela extinta TV Excelsior e pelas redes Record e Globo, revelou nomes da música que se destacaram na luta política no país. Geraldo Vandré foi o artista mais expressivo. “Vandré já tinha mostrado sua preocupação com a questão social com ‘Disparada’, sucesso na voz de Jair Rodrigues que falava dos sertanejos do Brasil. Mas ‘Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores’ marcou uma posição revolucionária”, relembra Paulo César Araújo, jornalista, historiador e autor dos livros ‘Eu Não Sou Cachorro Não’ e ‘Roberto Carlos em Detalhes’. Os versos de “Pra Não Dizer…”, apresentada no III Festival Internacional da Canção de 1968, criticavam duramente os militares e convocavam a população brasileira a sair da inércia e lutar pelos seus direitos. “Vandré foi o compositor síntese do engajamento político do Brasil e usou os festivais para expressar essa personalidade. Com os versos ‘Há soldados armados, amados ou não / Quase todos perdidos de armas na mão / Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição / De morrer pela pátria e viver sem razão’ ele fez um retrato da época”.
No mesmo ano e festival, Caetano Veloso concorreu com ‘É Proibido Proibir’, que confundiu muitos brasileiros. “Interpretada como uma canção de protesto à ditadura, ela foi inspirada nas manifestações parisienses de maio de 68, tema sugerido pelo ex-empresário de Caetano, Guilherme Araújo. Naquele momento, Caetano estava preocupado mais com a questão estética”, explicou Paulo César. “Apesar de ter sido revelado pelos festivais, Chico Buarque não fez deles palco de seu engajamento político. A crítica ‘Apesar de Você’ foi lançada em 70, dois anos depois que ele deixou de se apresentar”, completou.
A música, que desde sempre acompanhou movimentos políticos e culturais mundo afora, segue essa tendência mutante em eventos de grande porte. Engajados ou não, sinceros ou não, ganha o público, que pode se deleitar, se emocionar e se divertir com importantes apresentações em solo brasileiro. Ganham também as produções, que arrastam mais e mais pessoas para parecer que estão torcendo por uma causa nobre.