Da série: eu ainda me apaixono por pessoas.

Ligar para pessoas é um dos ofícios do meu trabalho. Não, não sou telefonista, mas ligo pra muita gente.
Dia desses sobrou-me a incumbência de ligar para uma senhora que apurei ter 70 anos, a Dona Maria. Minha missão era conversar com a senhorinha sobre sua participação e defesa ferrenha dos concertos de música clássica da cidade. Na primeira tentativa, falei com uma senhora apressada que estava saindo de casa rumo ao Planetário para assistir a um recital. Avisada de que no dia seguinte ela não teria concertos para ir, liguei e descobri que Dona Maria – que atendeu o telefone meio desconfiada – era funcionária pública aposentada e ela sim tinha sido telefonista. Foi da profissão que exerceu por mais de 30 anos que Dona Maria disse ter herdado o amor pelo trabalho com o público. Freqüentadora assídua dos eventos do Theatro Municipal desde 1978, Dona Maria contou-me que a partir de 25 de maio de 1995 – sim, ela lembra a data de cabeça – ela resolveu se dedicar de vez à música clássica. Mas, em vez de procurar um professor e aprender a tocar violoncelo, Dona Maria se empenha em ir a todo e qualquer concerto que acontece no Rio de Janeiro, além de divulgar os trabalhos de várias orquestras, comunitárias ou não. Dona Maria faz panfletagem, boca a boca e com um carisma absoluto enche todas as salas onde tiver um recital. Por causa dela, muitas pessoas vão, gostam, viram habitués e enchem Dona Maria de mimos: “Olha, minha filha, eu não gosto de sala vazia. Eu gosto é de ouvir aplauso no fim das apresentações”.
Foi com isso – e mais um pouco – que Dona Maria me conquistou. A senhorinha tem disposição para ir a uma média de 180 concertos por ano (presta atenção, é metade do ano assistindo a concertos), divulgar o trabalho dos músicos e ficar até o fim de cada apresentação para cumprimentar os responsáveis. Sim, Dona Maria é chique e além de gostar de sair bonita e perfumada, tem acesso livre aos backstages. Musicista brasileiro ou estrangeiro, todos conhecem Dona Maria e a tratam com muito carinho, admiração e respeito. É a versão mais velha do ROSA, FOFA e POPULAR.
Antes desligar o telefone, Dona Maria me passou os melhores horários para entrar em contato novamente com ela e, para minha surpresa, era no horário da agenda do programa VivaMúsica! no rádio. É quando ela está em casa para conferir a programação da cidade. Antes ela resolve seus problemas pessoais, depois ela sai para os concertos. Na despedida, prometemos nos encontrar durante o Rio International Cello Encounter. Para minha sorte, encontrei antes: hoje a senhorinha foi tirar fotos para uma matéria sobre ela e eu tive o prazer de acompanhar. Apesar de apreensiva por ser sua estréia em publicações, Dona Maria se mostrou uma senhora alegre, simpática, solícita – “Se é para ajudar o festival, eu faço sorrindo” – educada e muito, mas muito fofa, Dona Maria fala mais do que eu. E isso é um grande feito.
Uma história de vida muito bonita, uma dedicação que vi em pouquíssimas pessoas e uma vivacidade que nem eu, aos 20, tenho. Dona Maria, além de ser um dos seres mais encantadores que eu já vi, é um exemplo. Daqueles que vê outra senhora trabalhando e diz ficar muito feliz quando vê alguém de cabelos brancos ainda na ativa.
Dona Maria da Silva Pereira. Fiquei fã.








