Entre numa van e, em um ponto qualquer, observe um menininho com uniforme de escola pública pedindo ao cobrador para ir com sua tia bem velhinha até o ponto final, na Rocinha.
O menininho se senta ao seu lado e saca da mochila um daqueles brinquedos de papel em que você escreve adjetivos embaixo das abas, pede para alguém contar até 15 e escolher uma cor, para saber o que aba correspondente diz dessa pessoa.
Pois bem. O menino te cutuca e pede para você brincar. Você ri e, sem graça, pergunta o nome dele. “Eu sou o Thales, tenho 11 anos e tô na quarta série”. Depois de fazer a conta mentalmente e concluir que ele está no tempo certo na escola, você brinca. Na primeira cor escolhida, ele olha a aba e sorri. “Ihhhh, é coisa boa!”. A aba diz que você é “elegate” (sic), e você, educadamente, corrige.
Na segunda tentativa, ele faz cara de medo e diz que não vai te contar, porque você não vai gostar. Em uma espiada, você consegue ver um “sapatão” escrito ali. Mas com 11 anos?! Vai de novo, outra cor. “Bonita”, ele diz, com uma risada tímida de criança. Na próxima rodada, sai um “chata”, que novamente ele se recusa a falar alegando que você não é nada disso. O mesmo acontece com “debilóide”. Depois que você já ganhou todos os adjetivos possíveis, o menino pega uma borracha no estojo e finge apagar algumas palavras, para que vocês possam continuar brincando.
Na rodada seguinte, ele não deixa você escolher um número e vai por conta própria. “Aqui tá dizendo que você é bonita, elegante, legal e muito, muito, muito, muuuuuuuito gata”, diz Thales. Chega o seu ponto, você se despede do menino e segue seu rumo. Com um sorriso de orelha a orelha.
*****
Como alguém pode não gostar de crianças?